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Marketing & Negócios – Jornal Meio & Mensagem

A alavanca do resultado

Daniele do Nascimento Madureira

A gestão do conhecimento - maneira como as empresas geram, difundem e alavancam seus ativos intelectuais - ganhou espaço nas teorias de administração na última década, a partir dos adventos da globalização e da nova economia. As organizações querem colocar as pessoas certas nos lugares certos porque estão cientes de que isso as tornará mais competitivas. Para tanto, é preciso haver diálogo entre líderes e colaboradores, derrubar hierarquias desnecessárias, dividir o que se sabe com todos para aprender mutuamente e, com isso, acumular cada vez mais conhecimento individual e para a própria companhia. Este processo começa agora a ser aplicado em empresas de mídia e agências de comunicação no Brasil. Algumas mais dedicadas à lição de casa já esboçam a formação de universidades corporativas para dar novo impulso aos seus talentos. É o caso do Grupo Abril e da McCann-Erickson. Se Sigmund Freud, o pai da psicanálise, afirmou um dia que "só o conhecimento traz o poder", as organizações modernas estão descobrindo que o saber compartilhado pode se mostrar muito mais eficaz.

Diz uma lenda persa que o rei Giafer decidiu dotar os seus três filhos não apenas de grande poder, mas de todas as virtudes de um homem de bem. Ele mandou vir os melhores tutores do reino, cada um especializado em um campo distinto do conhecimento. Logo os três príncipes tornaram-se altamente capacitados em artes e ciências. Procurando coloca-los à prova, o rei chamou os três, um por vez, e disse que queria se aposentar, transferindo a um deles o poder. Os três se recusaram, afirmando que o pai era sábio e deveria governar até a morte. O rei ficou surpreso, mas decidiu enviar os príncipes a uma longa jornada para que pudessem adquirir experiência empírica. Os três saíram então de Serendip - antigo Ceilão, hoje Sri Lanka - a caminho do reino do imperador Beramo. Durante a estadia, fizeram descobertas magníficas, aparentemente por acaso, mas que na verdade só se tornaram possíveis devido à sagacidade dos três. Algo semelhante ao que aconteceria, tempos mais tarde, com a Lei da Gravidade (uma maçã que caiu madura da árvore despertou a idéia em Newton), a penicilina (Fleming constatou que a gota que pingou do seu nariz congestionado sobre uma plaqueta onde crescia uma colônia de bactérias acabou por eliminá-la) e a própria imprensa (Gutenberg viu as pegadas deixadas no chão por pés sujos de suco de uva e percebeu que poderia usar a mesma "tecnologia").

Em homenagem ao conto de fadas persa, o escritor inglês Horace Walpole criou em 1754 o termo serendipity - serendipismo ou serendipitia, para designar a tendência de fazer descobertas desejáveis, por acaso. Dois séculos e meio depois, criar um ambiente de trabalho favorável à serendipitia tornou-se a meta das empresas baseadas na sociedade da informação. É a filosofia da gestão do conhecimento que vem permeando a administração de empresas líderes na última década, mas que só agora, no Brasil, começa a ser adotada por veículos e agências de comunicação - ironicamente, quem dissemina o conhecimento no mundo moderno.

É essa postura que está por trás de iniciativas como a do Grupo Abril, que criou este ano o 1º Curso Livre de Humanidades, no qual executivos da área administrativa e editorial se encontravam ao final do expediente, uma vez por semana, para discutir com um grande nome da Filosofia no Brasil temas como o papel do governante na visão de Maquiavel, a crise da razão segundo Nietzsche, ou a dialética defendida por Karl Marx e Friedrich Engels. Algo que aparentemente não tem nada a ver com o mercado de revistas, especialidade da Abril, a maior editora da América Latina. "Queremos desenvolver o lado humano, a sensibilidade dos profissionais da companhia", diz o presidente executivo do grupo, Maurizio Mauro. As aulas de Filosofia proporcionaram uma base conceitual para o segundo módulo do curso, a ser ministrado no próximo mês, sobre Cultura Brasileira. "O objetivo é discutir a inserção do Brasil e da sua cultura no mundo para entender melhor o papel das mídias nesse processo e, conseqüentemente, a missão da Abril", diz Mauro.

A psicóloga especializada em comportamento organizacional Betania Tanure de Barros, professora da Fundação Dom Cabral, de Nova Lima (MG), voltada à educação executiva, explica que existem dois tipos de conhecimento nas empresas: o explícito (que pode ser documentado e organizado pela empresa) e o tácito (que pertence à pessoa e só pode ser transferido por vontade dela). "O conhecimento explícito, técnico, todo mundo tem. Pode ser obtido com facilidade na atual sociedade da informação", diz Betania. "Contudo, o tácito depende das interações entre as pessoas e aí está o desafio das organizações: transformar o conhecimento tácito em explícito, para que toda a empresa possa crescer."

Quem olha com ceticismo as "viagens" filosóficas a que se submeteram - de bom grado - os executivos da Abril ( ver quadro ) precisa se inteirar do que defende um dos principais teóricos da gestão do conhecimento, Ikujiro Nonaka: para ele, os executivos precisam gerenciar a serendipitia das empresas em benefício da organização, dos empregados e dos clientes. "A criação de novos conhecimentos não é uma simples questão de 'processamento' de informações objetivas. Ao contrário, depende do aproveitamento dos insights, das intuições e dos palpites tácitos e muitas vezes altamente subjetivos dos diferentes empregados, de modo a converter essas contribuições em algo sujeito a testes e possibilitar seu uso em toda a organização", diz Nonaka no artigo A empresa Criadora de Conhecimento ( in Gestão do Conhecimento - Harvard Business Review, editora Campus). E completa: "O elemento crítico desse processo é o comprometimento pessoal, o senso de identidade dos empregados com a empresa e sua missão".

Uma definição que está bastante clara para o administrador de empresas Alex Ribas, presidente da Venko Consulting, especialista em psicologia organizacional. "Qual o grau de alinhamento das pessoas com as metas da minha empresa? Essa deveria ser a pergunta a ser feita por todo líder, periodicamente", afirma. Por mais que o mercado de trabalho seja competitivo e as pessoas se esforcem para manter seus empregos, não é isso que vai motivar uma grande "sacada", como a da maçã, no caso de Newton, ou a do nariz resfriado de Fleming.

"As empresas precisam entender que vão conquistar mais resultados se respeitarem as pessoas, seus desejos e valores, procurando alinhá-los com os objetivos da organização", afirma Ribas, que tem O Boticário e General Electric como clientes. O empresário acaba de solicitar no Instituto Nacional da Propriedade Industrial (Inpi) o registro da marca Gestão do Auto-Conhecimento, um novo serviço a ser prestado pela Venko para auxiliar as pessoas a definir as suas prioridades em diferentes campos, inclusive no profissional.

O exercício de definir o que é mais importante em um mundo abarrotado de informações, como o atual, vai ajudar o indivíduo a dedicar tempo e energia ao que realmente importa - seja na vida pessoal ou no trabalho, afirma o professor de Gestão do Conhecimento da Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM), Romeu Busarello. "Hoje existe curso para tudo, prometendo ao indivíduo conhecimento capaz de fazê-lo progredir profissionalmente", afirma Busarello, que também é diretor de marketing da Tecnisa. "Mas esse saber explícito de nada vai adiantar se ele não se relacionar com as pessoas, procurar aprender com o outro, buscar respostas também fora dos livros", diz ele, lembrando que a prática de selecionar conteúdo vai ajudar o executivo a ter uma visão mais clara dos negócios. "Para que uma empresa de varejo precisa do cadastro de 2,3 milhões de clientes se ela não sabe o que fazer com isso?", questiona.

Na opinião do consultor José Cláudio Terra, presidente da Terra Fórum Consultores e professor de Gestão do Conhecimento no curso de MBA da Universidade de São Paulo, existem três perguntas que a companhia precisa fazer a si mesma para não perder o foco: quem sabe o quê? Onde encontrar? E em quê isso vai ajudar os meus negócios? "As empresas compram continuamente pesquisas sem saber se vão usá-las ou não e de que forma farão isso", diz ele, que já ocupou posições executivas na Abril e na Globocabo.

"As companhias costumam inventar a roda o tempo inteiro, porque um gerente de produto não compartilha o seu insight com o colega", afirma. Para Terra, uma das primeiras tarefas de uma empresa interessada em implantar processos de gestão do conhecimento é criar um repositório comum de informações que seja acessível a todos. "Pode ser uma intranet, por exemplo, mas também é desejável que as pessoas se encontrem e conversem, mesmo que em reuniões informais", diz.

Para quem teme compartilhar informações achando que isso pode deixá-lo mais vulnerável, menos "poderoso", Terra garante que acontece exatamente o contrário. "Quando eu guardo a informação, o conhecimento para mim, preciso correr sozinho atrás de tudo", diz. "Entretanto, no momento em que compartilho, as pessoas respondem da mesma maneira e as coisas chegam a mim. Não se gasta tanta energia procurando e pode-se acumular muito mais conhecimento a partir de diversas fontes, em vez de tudo depender só de você."