Imprensa

Gazeta do Povo
Segunda-feira, 18 de outubro de 1999

Assim progride a Humanidade

Há quatro anos rumei para a Austrália com vários objetivos, mas um deles era muito claro e incerto - conviver com os aborígines. O que eu sabia deles? Quase absolutamente nada, apenas uma vaga lembrança de um programa de televisão que dizia serem os nossos índios Ianomâmis e os australianos Aborígines os povos mais primitivos que habitam o planeta Terra.

Depois de um bom tempo descobrindo e planejando a melhor maneira de chegar ao tão desejado destino, acabei por conseguir o privilégio, concedido a poucos, de conhecer a comunidade de Numbuwar, no Norte daquele que é considerado um país-continente extremamente árido.

Foi o início de uma experiência única e marcante. Descobri que os aborígines são um dos povos mais avançados deste planeta. A referência é feita a um outro tipo de enfoque bem diferente daquele que nós, povos "desenvolvidos", estamos acostumados a mensurar, e provavelmente muito diferente daquele que vi na televisão. Entre os aborígenes, percebi que existe mais do que a nossa capacidade de resolver complexas operações matemáticas e de construir máquinas robotizadas e inteligentes.

Imaginem-se fazendo longas viagens sem qualquer tipo de bagagem, com a certeza de que tudo o que for necessário para você será fornecido pelas pessoas que irão hospedá-lo, inclusive roupas. Como vivemos numa sociedade racional e materialista, este tipo de viagem pode ser classificada como absurda por alguns tipos de pessoas e como improvável por quase todos nós, mas possíveis, normais e freqüentes para os aborígines, um povo desvinculado do materialismo e rico na subjetividade.

Lá eu vi e senti o valor do espiritual. Presenciei um sensibilizante ritual fúnebre, a apenas três casas de onde eu estava hospedado. Um jovem havia se enforcado, algo triste e chocante, cuja explicação provável era o choque de culturas, talvez pelo fato do homem branco e "inteligente" ter interferido de uma maneira errônea e precipitada em uma cultura de mais de 40 mil anos. O ritual fúnebre durou alguns dias com a casa sendo cercada e todos os pertences do jovem postos para fora. Houve música, dança e um ar impregnado de sentimento e espiritualidade. Pode parecer contraditório, mas vi beleza naquilo, algo profundo e de muito significado, algo para refletir durante horas e dias.

Também testei os meus dotes como professor. Fui convidado a dar uma aula na escola da comunidade quando falei de onde vinha e como era o Brasil. Tentei ensiná-los a ler as horas em um relógio de ponteiro, o que foi extremamente difícil, e leva muito tempo, independente da idade. Eles nunca precisaram disso, mas hoje os nossos amigos do outro lado do mundo estão procurando desenvolver o seu lado racional.

E daí vem uma questão: E nós, cidadãos modernos, pós-revolução industrial, como somos? Somos incompletos, da mesma forma que os aborígines. Eles são seres subjetivos, buscando a racionalidade, e nós seres racionais, despertando para a subjetividade; estamos aprendendo, assim como eles. Unir os dois lados seria um grande e rico progresso.

Havia uma época na qual os homens conseguiam efetuar todos os tipos de trabalho. Mas o tempo foi passando e alguém percebeu que haviam outras maneiras de se multiplicar o esforço do homem. Assim foi criada a máquina, que substituiu as mãos dos homens. Algum tempo depois verificamos que as máquinas não realizavam mais seus objetivos e deu-se início a um processo de valorização dos homens que pensavam. Durou pouco e alguém muito brilhante teve a idéia de criar máquinas que pensavam. Mais uma vez houve um salto na produtividade.

Depois percebeu-se que as máquinas pensantes já não eram mais determinantes no sucesso de uma empresa. Mais uma vez as máquinas estavam se tornando obsoletas. O foco se voltou, novamente, para as pessoas. Agora o diferencial competitivo são as pessoas que sentem. Esta é a fase na qual nos encontramos

E o que impressiona é que já existem boatos a respeito do desenvolvimento de máquinas que sentem. Será apenas questão de tempo para se proliferarem como algo comum.

Convido os leitores a uma reflexão: restará mais algum progresso para nós, seres humanos? Seria a valorização do homem espiritual a resposta?

Esta é a lógica do desenvolvimento humano. Estamos em progresso, através de um processo não linear. A máquina está promovendo o desenvolvimento humano. É como se fosse uma roda-viva: a mente do homem cria a máquina, que torna-se um modelo para a sociedade e organizações, que, composta pelos homens, criam novas máquinas, que têm a necessidade de se adaptar a uma nova estrutura de sociedade. Isso é o que chamamos de progresso.

Apesar da máquina estar se tornando cada vez mais semelhante ao homem, nunca se tornará uma de nós, pois é nossa cria. Também não nos igualaremos ao nosso Criador, mas podemos nos aproximar, sem igualá-lo, através do caminho da espiritualidade.

Quanto à nossa família, a base de tudo, será que estamos educamos nossos filhos com base em valores? Os aborígines mais uma vez são exemplares: a educação é baseada em valores, conduta ética e honestidade. Cada família possui uma região no campo ou deserto, onde passa de geração a geração toda a base para a formação de seus filhos, através de pinturas rupestres. Uma educação de dar inveja.

Não se trata, aqui, de uma defesa do estilo de vida dos aborígines, mas sim uma reflexão sobre o que está acontecendo à nossa volta, assim como suas respectivas conseqüências, como os crescentes problemas sociais, que colocam em choque classes sociais e, principalmente, deixam à margem do processo de conquista social uma legião de jovens brasileiros.

Alcançar o sucesso e a felicidade através do materialismo, assim como classificar o progresso apenas através de valores racionais é questionável, vamos pensar na importância do resgate da subjetividade em nossas atividades profissionais assim como na crescente valorização da espiritualidade pela pessoas.

Alexandre Ribas